Recomeços

Como choveu naquela noite. Posso lembrar-me perfeitamente. O dia tivera sido quente. O calor insuportável e um clima abafado fazia dos pobres brasilienses pessoas desidratadas. Sem exageros. Mas bastou chegar a noite e um temporal invadiu a cidade. Mesmo com o mundo se acabando em água, me pus a sair. Estava animada e queria conversar.

Parti rumo à Asa Norte para encontrar-me com um amigo. Há tempo não trocávamos palavras reais. Nos últimos dias, ou meses, o messenger estava sendo uma válvula de escape para nossas insanidades. Somos assim, um mix de normalidade e alienação. Procuramos por um lugar tranqüilo, onde pudéssemos fumar nosso cigarro e falar besteira. Bem ali, próximo de sua casa, uma ou duas quadras depois, achamos um lugar aconchegante. Lá servia petisco e cerveja gelada e, o melhor, se podia fumar.

Acomodamos-nos em uma mesa próxima a alguns casais e começamos a conversar. Regada a muita insanidade e risos descontrolados, compartilhamos histórias parecidas, vivências engraçadas e incômodos. Entre um recitar e outro me lembrei de meus recomeços. Impressionante: nos últimos anos de minha vida só tenho recomeçado. Como é ruim esta sensação. Com vinte seis anos completos sinto-me incompleta. Para ser mais precisa, nos últimos dois anos recomecei pelo menos seis vezes. Isso no quesito físico. A deixar de lado a matemática amorosa. É melhor não contar…

Diante daquela prosa boa, companhia agradável e um clima bastante nostálgico, cheguei a conclusão que agora quero seguir. E só. Não quero mais recomeçar nada. Por mais que muitos argumentem que o recomeço faz bem, digo-lhes de antemão: é bom, mas quando é apenas uma vez. Recomeçar sempre é como não começar nunca. E é justamente assim que me sinto. Ainda é cedo para iniciar as promessas de final de ano, mas, desde já, acredito não querer mais começar. Tenho meus planos e, para 2010, espero conseguir dar procedência a eles.