Ah o amanhã…

É verdade. Terei de ir contra tudo que escrevi. A conquista é mesmo a melhor parte. Sempre fui adepta ao “Se quer, falo logo. Assim não sobram dúvidas”. Apesar de todos meus amigos discordarem de tanta originalidade sempre defendi essa bandeira. Mas hoje venho me redimir. Depois de algumas experiências catastróficas e sinceridade extrema tenho de ir contra mim mesma. De fato, essa bendita parte alimenta o desejo.

As tais borboletas no estômago e bola de tênis entalada na garganta, como disse certa vez meu amigo Gustavo, é mesmo interessante. É bom querer ver, mesmo sabendo que não se terá o contato. Talvez, depois de passado o primeiro momento, o da conquista, isso perca um pouco o brilho, ou a sensação de adrenalina quando se encontra o affair, mas nada melhor do que o inesperado.

Encontrar alguém querido, num momento que não se imagina vê-lo na rua numa tarde de domingo, ou aguardar pelo telefonema que nunca chega, é mesmo prazeroso. Confesso! Sim! Confesso! É bom! Muito bom! A parte difícil é saber o que se passa na cabeça do outrem. Até que ponto a paquera é interesse ou apenas admiração.

Ah o beijo! O primeiro beijo depois da troca de olhares, do contato virtual, da espera exacerbada pelo calor da saliva. A expectativa, a frustração. Tudo isso é tão cativante que, por algum momento, não queremos passar disso. Deve ser por isso que existem os amores platônicos. Às vezes, por medo do depois, perdemos a chance de viver essa coisa tão maravilhosa. Acho que o medo é o mal da idade.

Certa vez, conversando com um amigo, alguns anos mais novo, escutei: “Não me importo com o amanhã. Se não der certo, tudo bem. Ao menos vivi o hoje”. Que maduro isso, não?! Nós, depois de sofrermos por amor, por amar sem resposta, ficamos meio bobos. Perdemos o sentido da paquera, do desejo. Ficamos tão apegados ao passado e futuro que isso compromete uma relação que mal acaba de nascer.

Bom mesmo seria se conseguíssemos nos desprender dos traumas, das tentativas que não deram certo e, sem comparações, nos entregássemos ao novo. “Tudo novo de novo”, como diz Moska. Cada dia, cada relação, cada experiência é única. Lamentar-se pelo romance que não dera certo, pelo sentimento calado pelas palavras, é mesmo ridículo. Se é que poderia defini-lo como tal.

É bom ser ridículo, já que o desejo nos permiti isso. Há alguns dias atrás, uma amiga levou para a “redação” um “dicionário de palavras ao vento”. Nesse, a definição em ser ridículo explicava a sensação de querer ter alguém e esse não dar a mínima a você. É claro que as palavras usadas pela autora eram bem mais poéticas que isso. Mas concordo. Quando nos apaixonamos sentimo-nos ridículos por pensar, por querer, por lembrar.

As músicas, o cheiro, o sorriso. Tudo faz lembrar o “bem” querido. Já que isso, de uma forma ou de outra representa o gostar, quero ser ridícula sempre. Certa vez escrevi sobre isso e hoje tenho mais que certeza que sou ridícula sempre quando posso, ou quando não temo o amanhã.

Quereria eu poder ser tão transparente quanto acho, ou simplesmente ter certeza do querer. Por que tememos tanto? Por que não nos permitimos a cada amanhecer? Querer prever o futuro ou tudo que poderia acontecer caso desse certo é desnecessário. Passamos tanto tempo imaginando o amanhã que deixamos de viver o hoje. Se possível, sejamos verdadeiros. Nos permitamos sempre. Nos entreguemos. Não há porque lutar por uma dureza no coração sendo que ela não existe. O sentimento fragiliza e é mais do que necessário isso. É nessa fraqueza que recebemos um abraço, um beijo e um afago de quem tanto queremos.

2 Comentários

  1. Simplesmente amei a crônica!!!
    Definitivamente uma das melhores!
    Beijos

  2. Belo texto, amiga!!!

    tb tenho que me redimir…
    tenho sido sincera demais e os resultados não foram tão positivos, hehehehehe.

    como diz a nossa amiga Karol, acho que estou precisando de um cursinho de como ser romântica e carinhosa. Mas…. isso já é outra questão, hehehehe…

    só discordo de uma coisa… não acho que o sentimento fragiliza. pelo contrário, fortalece… o problema é saber dosá-lo na medida certo e no tempo ideal.

    beijocas e PARABÉNS


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