Ser piriguete é…

Era uma quinta-feira. A tarde estava aconchegante. Não era frio e, tampouco, quente. O calor insuportável e a seca que assombrava a cidade começava a esvair. Aos poucos o cheiro de chuva me tomava o olfato. Uma agradável sensação me apertava o peito remetendo-me a momentos inesquecíveis de minha vida. O final de semana se aproximava e a agenda ainda não estava completa.

Por e-mail conversava com minhas amigas e, entre uma correspondência e outra, tentávamos definir a programação dos próximos dias. A certa altura, veio a bomba: “amanhã é aniversário do Ricardo, que tal?”. De longe já podíamos sentir o cheiro de piriguete, mas, mesmo assim, optamos em pagar para ver. É claro que, a certeza de que encararíamos tal evento, só veio após o comentário da irmã caçula de Nany que, recentemente, integrara o novo quarteto.

Ao definir os últimos eventos que nos acompanhara soltou sorrateiramente: “Eu não agüento mais acompanhá-las. Vocês vão sempre para bares vazios, bebem cerveja, falam de emprego, problemas e homens. Se saíssem para dançar e ‘pegar’ não teriam tempo para pensar nos problemas”, sentenciou. Ok! Ok! Nos comovemos. Não por acreditar em sua teoria, mas para fazer-lhe companhia.

Por várias vezes a vontade de não comparecer assombrou nossa mente, mas, como diz um amigo, a palavra vale mais do que dinheiro. A chuva já havia dado sinal de vida e o vento era tão gélido quanto nos dias de inverno. O vendaval arrancava brutamente as folhas das árvores que se insinuavam num musical quase perfeito.

O dilema de porque piriguete não sente frio é antigo, mas a cada vez que as encontro me surpreendo. Sim! Estava frio. Tudo bem, não era inverno. Mas sabe quando as primeiras chuvas começam a chegar trazendo as recordações do passado naquele vento que envolve sentimento, clima, cheiro e sensações? Não sei você, mas eu adoro aproveitar esse clima para empacotar-me.

Chegamos ao tal ‘evento’. Pasmem: elas (as piriguetes) estavam de short, blusa (leia-se tomara que caia, barriga de fora, ou qualquer coisa parecida) e vestidos CURTOS! Não me pergunte como, mas estavam. Ao som da ‘batida perfeita’, em posição de coito, ficavam a postos para receber uma esfregada masculina. A minha reação foi de surpresa. É claro que sei que isso acontece, mas oras, não poderia achar normal esse tipo de comportamento.

As tais piriguetes se ofereciam numa dança de acasalamento. Os homens, embebecidos pelo álcool e pelo tesão, passavam, ‘cumprimentavam’ as tais moças com uma ‘roçada’ na bunda e saiam para a próxima vítima. Não demorou muito para que a coisa esquentasse. Ao som da banda que tocava ritmos frenéticos, homens e mulheres começaram a se beijar e nós, de camarote, nos horrorizávamos com a cena catastrófica.

Acho que é um sinal da idade. Estamos ficando velhas. Sim, estamos! Não me lembro se na minha adolescência meu comportamento era vulgar, mas ao que me recordo, gostava de música eletrônica. Hoje gosto de quase tudo e tento fugir de rotulações, mas ao referir-se a piriguetes, os rótulos são indispensáveis. As próprias músicas as definem. “A piriguete quando chega no pagode a galera se sacode e começa o auê. É uma alegria ver sua calça baixinha aparecendo a marquinha…”. Ou então “Mini-saia rodada, blusa rosinha, decote enfeitado com monte de purpurina. Ela não paga, ganha cortesia. Foge se a sua carteira tiver vazia. Vai na Micareta, vai no Pop Rock, festa de axé ela só anda de top. Ela usa brilho, piercing no umbigo…” Pensa que se incomodam? NÃO! Adoram ser tratadas assim. Não quero que entendam como preconceito, afinal, cada um “sabe a dor e a delicia de ser o que é”.

2 Comentários

  1. ” …A tarde estava aconchegante. Não era frio e, tampouco, quente. O calor insuportável e a seca que assombrava a cidade começava a esvair. Aos poucos o cheiro de chuva me tomava o olfato. Uma agradável sensação me apertava o peito remetendo-me a momentos inesquecíveis de minha vida….” Acho engraçada essa caracterísica dos seus posts. Não sei se você faz de propósito ou de forma inconsciente, mas eles sempre estão cheios de “percepções” (sem melhor palavra pra definir o termo-falta de percepção da minha parte). Quase tudo que você escreve tem calor, ou frio ou cheiro de chuva ou sons que trazem lembranças… Muito Juliana Toledo isso! ;)

  2. Outro dia eu e uma amiga falávamos (mal, admito) das piriguetes. De fato, não tem frio. Usa salto de acrílico, geralmente quer ser loira e segundo nossa teoria, se tirarmos o PILSSING do umbigo, ela esvazia. Chegamos à conclusão de que elas são um novo ramo da evolução humana, que adquiriu resistência ao frio, à gripe, às más línguas e surgiu da necessidade dos playboys/bombados (outro ramo evolutivo-masculino) de encontrarem parceiros ideais dando assim continuidade à espécie. Darwin sabe o que faz!


Comentários RSS URI identificador do TrackBack

Deixe um comentário