Alienar-me. Não assistir tevê. Não ler desgraças nos jornais. Não saber da violência. Tentei não me preocupar com o lugar onde moro. Com a ausência de uma vaga para garagem. Com a estúpida violência descontrolada. Juro que tentei não perceber o quão covarde o ser humano é. De quantas coisas somos capazes de fazer por amor, ódio e vaidade.
Confesso que tentei. Não um, ou dois dias, mas muitos. Apegar ao que me agrada. Aos amores passageiros, às lembranças agradáveis. Aos sonhos possíveis. À campanha “Não a Realidade”, com o único intuito de viver melhor. Tentei acreditar que as coisas só aconteciam com os outros, mas esqueci-me de que o outro pode ser eu.
Ouvia música alta, cantava enquanto dirigia e distraia-me do que me aborrecia. Colorida. Como as cores de Almodóvar. Era assim a vida, aliás, deveria ser. Entorpecia-me. Vivia saborosas experiências diárias. Mas, acontece que, a merda da tevê, aquela que socializa e individualiza, não me liberta.
Tornei-me prisioneira desse mundo real e violento. Onde não amamos por medo de sofrer. Não chegamos tarde por medo de seqüestros. Virei escrava do cuidado, sem o qual me exponho aos atentados marginalizados. Olho atentamente para um lado, para o outro. Certifico-me que estou salva, pelo menos por enquanto.
Quer vida mais sem graça? A vida tem nos tirado a vida. É horrível pensar que pelo fato de ter um carro, uma condição econômica mais favorecida do que a de outrem, ou um pouco mais de prioridade ou capricho, isso lhe tirará ainda mais o sossego. Tenho medo. Inclusive de mim que me trancafiei dentro de casa e deixo escapar-me a liberdade. Essa que passei a vida inteira sonhando.
Eu juro que tentei achar luz no caos. Que tentei apaixonar-me até nos romances mais banais. Tentei ver importância no amor, na companhia de alguém, de dormir e acordar junto. Por várias vezes tentei dizer nas entrelinhas de um texto, ou dois, que aquele ponto simbolizava um novo começo, e não um fim. Que aquilo ainda não era amor, mas poderia ser.
Entretanto, como fazer isso se até os romances são rodeados de realidade? Tento, diariamente, fazer da minha vida um sonho do qual não gostaria de acordar. Porém, estou presa. A uma angústia. Ao medo. O mesmo que me trancafiou em casa por receio, me trava o coração por medo de amar!
4 Comentários
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DOS TEXTOS QUE LÍ AQUI FOI O MAIS PERFEITO… SIMPLESMENTE AMEI… ME DÁ UM AUTÓGRAFO ENQUANTO AS REDES INTERNACIONAIS DE TV NÃO TE DESCOBRIRAM AINDA AQUI NO “NOSSO MUNDO ENCANTADO”?
TE AMO PIRI WINEHOUSE
Tinha tempo que não passava por aqui e hoje resolvi vir. A técnica realmente melhorou muito. Parabéns Juju!
E o conteúdo? Pode acreditar que continua interessante (rs).
Fico muito feliz que esse seu projeto continue vivo e pelos seus outros planos realizados. Tenho que concordar com a Juliane, o reconhecimento é questão de tempo.
Grande beijo,
Rafa
Oi Ju!!! Dei uma passadinha e adorei o texto. O medo é a doença do século né? Se a gente para pra pensar, a gente sente medo de tudo…como se livrar disso????
oi não te conheço, estava procurando outra coisa e encontrei os seus textos, não gosto de ler, e li todos. Parabéns adorei eles, agora virei sua fã.
bjos
Rafaela – Piranguinho/MG