Dona Zuzu

Era sexta-feira. Havia menos de 48 horas que regressava do paraíso de minhas férias. Tinha vivido 30 dias de imensa satisfação. Ora, fui à praia, realizara um grande sonho e ficara com as pernas pro ar por 30 dias! Sim meu amigo, isso é ótimo. Ainda mais quando há tempo não se desfruta de dias de relax.

A redação – prefiro assim denominar a sala onde trabalho que longe está de ser uma – estava tumultuada. Logo no regresso ao trabalho muitas coisas haviam acontecido e nós, trabalhávamos incessantemente para colocar tudo no lugar, ou melhor, “no ar”.

Mesmo com muito a fazer, meu talk (bate-papo do Gmail) estava on-line. Uma grande amiga, que há dias estava na Espanha a dissertar sua tese de doutorado, me chamou a atenção. Sutilmente ela disse: “Flor, recebi um recado de dona Zuzu. É lindo. Me emocionei. Entra no meu blog para você ver”. Logo me perguntei: – “Meu Deus, quem é dona Zuzu?”. Parei de escrever a matéria e urgentemente fui conhecê-la.

Uma surpresa. Uma emoção. Meus olhos ficaram imersos na água do anseio, da realidade. Não é exagero. A tal dona Zuzu é uma internauta do blog da Janara Sousa. A  proposta (do blog) é interagir com pessoas da terceira idade e deixá-las a par do projeto de doutorado. Janara é minha grande mestra, orientadora, amiga e alguém que fez e faz a diferença em minha vida acadêmica e jornalística.

“Dona Zuzu, muito prazer em conhecê-la. A senhora me fez refletir. Sobre a velhice, a vida, a juventude, o futuro”. Se pudesse encontrá-la seria esse o meu discurso inicial. Além de abraçá-la e beijá-la pelo lindo e realista cordel que escreveu, agradeceria por me fazer enxergar.

Nós, jovens criaturas cheias de ânimo e vontade de desbravar o mundo, achamos que a velhice não nos pertencerá. É natural que pensemos assim, afinal, ficar velho está tão longe… Com ¼ de século, sinto-me jovem. A energia de curtir a vida me consome mais do que deveria. Mas será que estou mesmo tão longe de alcançar a temida velhice?

Além do corpo, a terceira idade está na mente, na alma, no coração. Ainda que tenhamos 80 anos, podemos sim ser jovens. Jovem como a dona Zuzu ou como centenas de pessoas que não aderiram à fragilidade do corpo daqueles que passaram dos 60. O que o tempo nos leva? O corpo durinho que amolece, a memória que se apaga. A força para sair. Mas nos traz a experiência, a sabedoria e a paciência.

Confesso que me faltam palavras. Não conseguiria descrever como me senti ao ler aquele texto. Estonteada voltei ao meu trabalho. Conclui minha matéria e me pus a pensar. É clichê, mas é isso mesmo o que dizem. Passa tudo tão rápido… quando vemos, já foi. Porque não deixar de lado a ignorância, estupidez, intolerância e tudo aquilo que nos afasta de pessoas tão especiais e maduras capazes de nos ensinar o que só o tempo, o bendito tempo, nos ensinaria?
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