Inquietante!

A tarde estava fresca e não passava das 18 horas. As folhas das árvores dançavam com o vento num balançar quase perfeito. O céu estava parcialmente nublado, como gostam de afirmar os meteorologistas. E eu estava ali. Sentada em uma barraca de cocos. O movimento era pouco e as raras pessoas que se atreviam a caminhar mantinham um andar compassado. Não demorou muito até que ela chegasse.

Bem ali, ao lado da barraca, ela estacionou o seu carro e desceu. Com uma voz trêmula pediu uma cerveja e saiu. De volta ao carro, acendeu um cigarro, ligou o som e se pôs a pensar. Sua cara inquieta me gerou constrangimento. Ela era jovem, aliás, bastante jovem. O que poderia afligir alguém em um dia tão agradável?

A pergunta não queria calar em minha cabeça. A feição daquela garota me gerava angústia. Queria poder ler seus pensamentos. De fato algo bastante desconfortável a incomodava. Isso era claro pela quantidade de cigarros que consumia.

O seu ritual de descer e comprar uma cerveja se repetiu por, pelo menos, seis vezes. A noite caia levemente, e sua postura não mudava. Ora ou outra olhava acabrunhada para o seu aparelho celular. Acho que ela aguardava uma ligação. Sabe-se lá de quem. Após uns sessenta minutos ali parada, o tal celular tocou, mas não era quem ela esperava. Posso afirmar isso pela cara que fez.

Não demorou muito até que veio a segunda ligação que, pelo visto, também não era a aguardada. E pronto. Depois disso nenhum som de ligação ou mensagem. Quanto mais demorava a tocar o telefone, mais instigada ela ficava. Infelizmente não sei descrever o final dessa história, pois a noite se encerrou. O céu escureceu e era preciso fechar a banca. Antes de sair, educadamente perguntei se ela desejaria outra cerveja e, com um sorriso plácido no rosto, ela disse que não. Já estava satisfeita. Aos poucos fui encerrando as atividades daquele dia e me despedi. Quando já estava com tudo pronto para ir-me, olhei para ela. Avisei-a de que estava tarde e que logo mais não haveria ninguém. Ela abriu os lábios e disse-me: – “Obrigada! Não se preocupe. Logo mais irei também”.

Com passos lentos fui distanciando-me dela e daquela situação. Minha cabeça curiosa tentava encontrar alguma pista que justificasse a solidão daquela menina, mas nada, nem eu mesma, conseguia desvendá-la. De longe gritei: – “Fique com Deus” e ela rematou dizendo: – “Amém!”

1 Comentário

  1. Adorei o texto, essa menina que não para de fumar e que toma seis cervejas em uma única hora me lembra alguém muito especial que tive oportunidade de conhecer.
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